Então é natal... e eu precisava desabafar - O mundo da Tutty

sábado, 24 de dezembro de 2016

Então é natal... e eu precisava desabafar


E por isso eu sabia que ia existir um momento exato para escrever esse texto. Primeiro porque é natal e ninguém vai ter tempo de ler minhas lamúrias. Segundo porque tem tanta coisa acontecendo na minha vida, que sinceramente daria um livro. E vai ter.

Sabe nunca entendi porque cada vez que eu passava natal ou ano novo viajando e longe da minha família, sendo na virada das festas por mais felizes que estivessem, eu sempre chorava. Mais não era um choro de felicidade, mas um choro de angustia, nunca entendi o motivo, mas naqueles momentos me arrependia de ter viajado e ficado longe dos meus pais. Quando eu ligava na virada para desejar feliz natal ou ano novo eu sempre chorava, parecia uma forma de arrependimento dentro de mim, porém logo passava. Mas isso me intrigou toda a vida. Ninguém fica triste nesses datas quando tem saúde, família, e estava em datas comemorativas viajando.

Hoje eu entendo aquele sentimento, é o mesmo que sinto nesses dias atuais, o choro do vazio. Tem um ano e oito meses que meu pai faleceu, eu já contei essa história aqui, e não tem um dia que eu não pense nele ou sinta sua falta. Ele era minha outra metade, minha metade totalmente oposta, mais eu amava isso.


Eu tinha razões para amar meu pai e para odiá-lo. Todos os filhos em algum momento odeiam os pais, eu odiava os meus quando ele queria que eu fosse medica, mas eu entendia, ele queria ter a certeza de que quando ele me deixasse eu teria uma vida financeiramente estável. Odiava quando ele mentia, e nisso meu pai era um mestre, ele não sabia mentir, mas mentia, e eu sentia isso a quilômetros de distância, porém isso também foi bom, cresci aprendendo quanto mentir e ruim, desagradável e que pode ferir algumas pessoas. Eu odiava meu pai, porque mesmo errado, ele queria que aceitássemos que ele estava certo, e como eu sou sua cópia, era briga na certa. Eu odiava que meu pai não tivesse um emprego fixo, porque dá mesma forma que ele queria me ver estável e independente, eu desejava o mesmo para ele. Mas eu também o amava, teria uma lista imensa para contar todos os motivos desse amor. Eu o amava, porque ele me via como sua princesa, mesmo eu já sendo bem grandinha. Amava porque tive minha adolescência baseada em festa, e ele me levava e buscava a todas, e também me proibia de ir quando sabia que não era lugar para eu estar. Amava porque alguns dias mesmo sem dinheiro, sem um real, se eu precisasse de qualquer coisa na rua, ele tratava de conseguir, eu o amava porque ele fazia todas as minhas vontades, porque eu parecia uma cópia dele, porque por diversas vezes a comida foi pouca na mesa, e eu vi ele se recusando a comer, dizendo não ter fome, para poder deixar pra eu comer. Eu o amava, porque eu o tinha todo o tempo comigo, para sair comigo, para almoçarmos juntos, para cochilarmos depois do almoço, para lanchar. Porque ele foi o único que sabia fazer um carinho pra eu dormir, que ninguém mais sabe, e hoje eu faço nas suas netinhas, que ele pouco viu crescer. Eu o amo, porque ele nunca me deixou faltar nada que eu queria, e eu via todas as suas dificuldades. Eu o amava porque mesmo sendo uma fracassada na minha área, ele não me via como fracassada, me via como sua filha. Ele acreditava nos meus planos, em qualquer um, por mais mirabolantes que eles fossem. Eu o amo, porque ele fazia questão de me dizer diariamente o quanto ele me amava, porque eu adorava abracá-lo, tirar seus cabelos do ouvido, pintar seu cabelo. Eu amava ver ele chegar e mesmo triste ele olhava nos meus olhos e esboçava um sorriso, e eu amava seus olhos e seu sorriso. Eu amava andar de mãos dadas na rua com ele (era seu maior orgulho). Como me faz falta...

E sabe porque eu falei tanto dele? Minha mãe nunca me viu como o meu pai. Desde que ele faleceu, tudo tem girado em torno dela, eu girei em torno dela. Eu sei, estou desempregada, e por isso definitivamente posso executar as atividades de casa e resolver os problemas que aparecer. Porém eu sou mais que uma filha desempregada, que exerce atividades em casa e resolve alguns problemas. Para minha mãe, sou um filha desempregada que tenho como obrigação ser a empregada dela. E isso tem me machucado muito. Depois da sua morte, eu tomei tudo como obrigação, e ás vezes até as obrigações que eram de meu pai, e eu não queria fazer o que ele fazia, não queria sentir que estava ocupando o lugar dele, ou que ele poderia se substituído, ou que apenas eu não queria fazer para não lembrar dele, mais ninguém se importava com o que eu sentia, nunca perguntaram. 
Algum tempo depois, minha mãe entrou em depressão, mesmo depois de toda minha luta para que isso não acontecesse, eu juro que lutei, então as coisas pioraram, ela saiu do trabalho, ficamos as duas desempregadas, e ela doente, em nenhum momento depois da morte dele me deixei cair. Sabia que isso não podia acontecer, se eu caísse, ela ia cair junto, se eu a perdesse também não sei o que faria, e tinha que dar forças ao meu irmão. Engoli toda a dor, sorrir e fui. Nunca deixou de doer, nunca diminuiu como me disseram que aconteceria. Choro todas as noites quando estou só, penso nele quando vejo pais por ai com seus filhos, velhinhos parecido com ele, lugar que fomos, que queríamos ir... Mas a dor permaneceu quieta dentro do peito. Quando minha mãe melhorou e conseguimos ficar unidas por um tempo na sua reabilitação, foi muito bom, ela pode me conhecer melhor, mas essa farra durou apenas algumas semanas e tudo voltou a ser o que era. A empregada da casa.

Tenho passado dias bem difíceis. Procurei psicologo, tomei remédio controlado, melhorou por um tempo, mais logo eles perderam o efeito e eu parei. Eu não gosto de estar desempregada, luto todo dia atrás de emprego (ah Tu, mas porque você não faz concurso? Porque? Vou te dizer, ela não quer que eu faça concurso se não for aqui da cidade ou bem próximo, para que eu esteja sempre aqui), tenho dias péssimos e depressivos quando não encontro nem lugar para por currículo. E choro por isso. Mas por isso apenas, ela deixou de olhar como filha e começou a me olhar como sua emprega. Ás vezes não me importo, estou em casa não me custa fazer, mais se eu arranjo algo para fazer e não fico em casa, ou preciso viajar, ou apenas não acordei bem, to triste, na deprê, e passo um dia sem fazer minhas obrigações, parece que nunca faço nada, e ai ela vira para o mundo inteiro e diz que eu não presto, que eu não faço nada, que eu sou ruim, e muitas outras coisas. Meu pai jamais faria isso. Ele dava valor. Ela não. Ela só dá valor enquanto eu estou graxeirando para ela.

Chorei muito essa semana por isso. Época de natal sempre lavamos a casa inteira, e esse ano não estávamos no clima, mais eu faria sem problema, ate pedi para fazer, mais ela decidiu chamar alguém para fazer isso, aceitei. Apareceu uns compromisso em outra cidade e fui, afinal a empregada que ela chamou iria fazer meu serviço, fiquei mais tempo do que eu esperava, cheguei no dia 23, vim feliz, sentia falta dela e de minha cachorra, cheguei contando tudo da viagem, que ela nem se deu ao trabalho de fazer cara de importância, então desistir. Mais ainda no clima de natal que a data merece, perguntei a ela no que podia ajudar, e ela me deu um zilhão de obrigações, que eu iria fazer. Porém decidir antes ver minha tia, avisar que havia chegado, e para minha surpresa, fui humilhada na frente de todo mundo, como a filha que largou a mãe só e fugiu da faxina...mais como assim? Ela não me disse que tinha chamado alguém? E a bendita não veio e fez? Não entendi o comentário. Respondi que não vim antes porque estava trabalhando, e não menti. Voltei.
E me dei conta que nada que eu fizer para minha mãe nessa vida, nem nas próximas será o suficiente. Nada. Pessoas boas para ela, são as que dão dinheiro ou estão a sua disposição, e assim que a pessoa te negar uma única vez já não presta. Então hoje eu desistir. 
Uma das minhas metas para 2017 era ter mais tempo para cuidar de mim, o que não fiz nesses últimos anos, então decidi começar mais cedo. Hoje. Decidir não me importar dessa vez com seus comentários, mas também não ser mais disponível nem conivente com ela. Já que não presto fazendo, pegarei esse tempo fútil de emprega e investirei no blog, na minha vida e no meu relacionamento.
Essa era a grande diferença dela para o meu pai. Meu pai sabia a importância do dinheiro, mais sabia que mais importante que isso, era amor. E isso ele tinha de sobra. E eu jamais vou me acostumar sem ele.
Hoje também decidi que não participarei do Natal em família, já não tinha clima, mas estava levando pela minha mãe, e resolvi não levar mais esse peso também. Vou dormir, não quero estar em outros natais e lembrar de como fui feliz, então ao menos dormindo posso ter a chance de sonhar com meu pai novamente, e quem sabe um dia estar com ele.