Crise existencial antes dos 30 - O mundo da Tutty

quarta-feira, 15 de março de 2017

Crise existencial antes dos 30

Hoje acordei naqueles dias que nada está bom, e até o que está bom, hoje está naturalmente ruim.
Hoje foi o dia que você podia ter feito mil coisas, mas a única coisa produtiva do dia, foi esse texto sendo produzido antes da meia noite. Todas as outras horas que sobraram, você estava afundada no sofá sem saber o que fazer da vida.
A nostalgia tomou conta e você lembrou de tudo que não devia.
Nem cheguei aos trinta, na verdade tenho 27. E comecei a vida toda errada. Fiz enfermagem, um curso maravilhoso, mas que hoje está saturado e você não encontra emprego se não tiver um Q.I (quem indiquei você, que no caso tem de ser um prefeito, vereador, cargos do gênero), também não fiz o curso por amor, meus pais queriam que eu fizesse Medicina para ser igual ao meu irmão - tedioso- não passei em medicina, então corri para enfermagem.
Me formei, e acreditei que em até um mês estaria empregada, ganhando razoavelmente bem para os meus gastos, até encontrar um segundo emprego e conciliar os dois.
Pois bem tenho dois anos atrás de emprego e a única coisa que aparece são treinamentos que nunca vão para frente, voluntariados que eu tentei de bom gosto, mas o gasto financeiro de transporte estava ficando extenso, então parei.
Fiquei um tempo sem saber se faria uma pós-graduação, um mestrado ou não. Tanto tempo parada, seria cabível investir mais na área? Não. Mas mais uma vez fiz o gosto de minha mãe, investi na pós. Vou acabar agora em agosto e Deus proverá, ou não. Tentei convencer minha mãe a deixar que eu tentasse a segunda graduação, mas ela ficou cega para enfermagem, acredita que vai dar certo, e também as condições financeiras não iriam dar!
Então depois de dois anos esperando um milagre, resolvi tirar o filtro do emprego, e comecei a enviar currículos para tudo e todos. Lojas, empresas, estúdios. Bastava ter " trabalhe conosco" ou " tem vaga" e lá estava meu currículo. Angustiante é você entregar tantos, não ter 10 respostas, apenas uma entrevista, e no dia ter alguém melhor que você para o cargo.
Quem disse que para Deus tudo tem a hora certa, não sabe o que é ficar dois anos aguardando um bendito emprego. Tive muita crise nervosa nesses tempos. Saber que sou formada e continuar dependendo dos pais é no mínimo catastrófico. Pior ainda é quando as pessoas te julgam achando que você está adorando ser desempregada e ter de esperar sua mãe querer te dar um livro que lançou ou uma calcinha porque as suas estão velhas.
Para piorar nesses anos, tive que encarar muita coisa, mentira, traição, daquelas que quem fez merecia um dez. E não vou mentir, desculpei os erros, mas não perdoei. Para quem me conhece sabe que duas palavrinhas que eu não tenho no dicionário, logo, se você é meu amigo, namorado, familiar, espero que também não as use comigo. Mas tive que lidar com isso. E não perdoei, não consigo, e cada vez que penso nisso tudo me afundo mais no sofá, me perguntando se eu não deveria ter tomado rumos diferentes nas histórias. Ás vezes tenho dúvidas sobre as coisas que deixei passar, e que me perseguem a cada encostar no travesseiro.
Tá achando pouco, vem cá bem que a coisa piora aqui! Ainda lidando com isso que no comparar parece um caroço de feijão para o que vem. Perdi meu pai para o câncer, então aquele buraco que já tinha se aberto, virou uma cratera sem fim. Meu nervoso virou depressão. Meu pai era a minha felicidade e tragedia. Meu amor e ódio. Jamais vou conseguir explicar o que existia entre esse amo de pai e filha, parece coisa de outras vidas. Até hoje não consigo lidar com ter que viver sem ele aqui. E por isso também que essas crises chegam constantemente.
Logo depois, perdi um grande amigo, e não, ele não morreu. Mas resolveu se afastar por não saber lidar com as próprias incertezas. Foi para um pouco longe, mas a distância já tinha nos atingido antes mesmo dele pegar o avião. Então aquele cara que me fazia feliz toda vez, que entendia minha mente gorda, minhas piadas, minha falação, meu nervoso, que me entendia completamente, ou eu achava que sim, já não existia mais, deixando a saudade se instalar, fingindo que não existíamos um na vida do outro. Logo depois perdi mais uma amiga, que mais parecia irmã. Foi quem mais me apoiou depois da morte de meu pai. Ela também foi embora, e aquela que ocupava minhas tardes com problemas e maluquices, também tinha que viver sua vida.
Minha vida perdeu o rumo, desde cedo tomou caminhos errados. Me parece que nos últimos anos o único caminho certo mesmo, foi ter criado o blog. É por vocês que ainda estou aqui. Pelas palavras de força e carinho.
Hoje se tornou difícil acreditar que as coisas vão mudar. Todos os seus planos feitos durante toda a vida estão indo água abaixo a cada abrir de olhos, por isso acho que prefiro sempre estar dormindo. " O que os olhos não vê, o coração não sente, não é?!"
Escolhi caminhos errados a vida toda.  Alguns jamais serão corrigidos. Deveria ter feito o curso dos meus sonhos, mas resolvi fazer o dos sonhos dos meus pais. Deveria ter escolhido esperar, mais botei a carroça na frente dos bois, deveria ter escolhido o caminho mais lógico da vida, mais sempre escolhi aquele mais lisinho que dava para descer escorregando. Pensei ter sido esperta a vida toda. Mas agora a vida toda tem me engolido.
Meus planos de hoje ter uma casa, carro, ter um casamento lindo, estar com alguém de verdade, ter gêmeos, viajar e ter uma carreira de sucesso, está cada vez mais longe da minha vida. Também quem me dera ter essa vida perfeita que planejei aos quinze anos.
Hoje nos melhores dos meus dias, acordo destrocada por dentro, mas por fora, ponho um sorriso e fingo estar tudo bem. Corro aqui e ali para fazer do dia o mais produtivo. Tento pensar em todas as coisas que passarei no amanhã e tentar ganhar tempo no hoje. Mas hoje, neste exato momento, não sei nem se pertenço a esse mundo, quem dirá que meu maior problema será estar no caminho certo.
Depois que meu pai faleceu, a depressão me persegue, como uma sombra, consigo afastá-la no maior do tempo, mas cada vez que ela me abraça, sinto que ela consegue ir mais fundo, e que um dia ela vai chegar no ponto do fundo que ela não vai voltar. Vai criar casa e família e vai destruir tudo por aqui, hoje ela conseguiu, amanhã eu não sei quem vence essa batalha.
Sinto-me cada vez mais só, e fico me perguntando diariamente quem eu perderei amanhã. É como viver num labirinto da tristeza, você sente ela ali, mas não sabe para onde ir, nem quando chegará ao final.
Se vocês não estão entendendo o que eu quero dizer, imagina eu, a minha cabeça parece aquele emaranhado de linhas que o gato tirou para brincar, embolou e deixou ali. Santo Deus! Quando as coisas vão começar a dar certo?!