Um grande desabafo - O mundo da Tutty

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Um grande desabafo


Na nossa vida tudo muda em questões de segundos. Sua vida vem abaixo e você não tem nenhuma escolha nesse momento. Essa semana parei para refletir sobre minha vida, e porque quando as coisas parecem bem tudo desmorona e dá errado.
Quando me formei em enfermagem tinha três certezas, a primeira é que nunca quis fazer enfermagem, fiz porque meus pais queriam que eu fosse médica que nem meu irmão, e eu não passei em medicina, mas essa certeza veio com tudo no 5° semestre, porém já no fim do curso, resolvi que para não ser uma decepção na família iria terminar o curso. Segundo que já que eu tinha feito enfermagem tinha três saídas: me especializar em emergência, pediatria ou UTI.
Terceiro que eu nunca quis formatura e esse dinheiro eu queria viajar, ou fazer pós ou encarar a vida pra entrar em Medicina.
Me formei e fiz a festa, que era o sonho de minha mãe, e tudo começou errado dai: o fotógrafo não apareceu, a câmera não tinha bateria, e minha tia resolveu cantar música brega em uma festa que só tinha gente nova. Todos os meus amigos odiaram e falaram isso na minha cara. Tive vontade de chorar por dias, mas nunca disse nada a ninguém, minha mãe fez o maior esforço para me dar a festa que eu mal tenho fotos.
Meses depois chegou o natal, era nosso primeiro natal sem árvore, eu amo o natal, era a época mais linda e triste de todas. Eu jamais podia deixar nossa casa sem árvore, mas não tinha dinheiro para comprar uma. Então alguns dias antes do natal, eu e meu pai fizemos uma árvore de algodão, juntos, e ficou linda. Vou me lembrar como ontem, foi o nosso momento e estávamos orgulhosos. Tinhamos uma árvore linda.
Três meses depois, exatamente dia 30 de março descobrimos que meu pai tinha câncer, na verdade ele mais parecia uma árvore de natal acesa. Dentro de 14 dias, passamos pelo maior inferno que eu poderia imaginar que aconteceria. Mentimos para meu pai, não há nada que poderíamos fazer, contar a verdade só o atormentaria. Mentimos por 13 dias. Passei as 24 horas com ele pedindo a Deus que resolvesse isso, não o queria ver ele sofrer. Nesse tempo recebi uma ligação de uma hospital de São Paulo, contrato imediato, sonhei em trabalhar lá, mas naquele momento jamais deixaria meu pai, e recusei o convite.
Eu ainda não tinha dado e recebido todos os abraços dele, não tinha dito vezes o suficiente que O AMAVA. Não tinhamos saído o suficiente com ele para comer, ele não tinha visto as netas crescerem direito. Ele não tinha me visto fazer as maiores conquistas. Tinhamos planos. E Deus levou ele 13 dias depois.
 Sofremos como loucos na madrugada antes dele ir. Meu pai estava se afogando no seu próprio líquido, e eu sabia no momento que eu perguntei a meu irmão se não faríamos nada, que ele já estava fazendo. Estava fazendo com que meu pai sofresse apenas uma vez. A última. Não sei até hoje se o perdoou ou agradeço. Fico imaginando meu pai dependente em casa, e isso nunca foi sua cara.
Meu pai foi internado no hospital que fiz todo meu estágio, era um hospital público, sei todas as dificuldades daquele hospital, e mesmo assim, por causa do meu irmão que era médico de lá, meu pai foi tratado como rei. E essa foi a única coisa que agradeço aquele lugar. Meu pai faleceu no mesmo dia.
Se tive alguma certeza naquele dia era que eu não tinha feito o suficiente por meu pai, fui cega aquela doença, deveria ter visto os detalhes, e eu nunca poderia recompensar o que aquele hospital fez por mim, por ele. Então na primeira oportunidade que tive doei meu cabelo para peruca de pacientes com câncer, não era nem um terço do que eu queria ter feito, mas era o que estava ao meu alcance. E estagiei no hospital, na UTI que meu pai faleceu, por meses. Era minha única forma de agradecer aquele lugar. Fiquei o tempo máximo que pude. Vi idosos que me lembravam meu pai, internado, com câncer, e fiz o que eu pude por eles, como faria por meu pai. Porém um dia tive que ver um idoso com as mesmas características e patologias que meu pai teve, parando, e eu tive que assisti sem poder mexer um dedo, escolha da família, naquele dia pela primeira vez chorei pela morte de meu pai, pela morte daquele idoso. E foi meu último dia. Mas parecia um aviso de que meus dias ali tinham chegado ao fim. Eu tinha concluído minha missão.
Minha depressão se instalou bem nesse dia. E sim, sei o que é depressão, sei de perto o que é isso. Porém eu tinha um irmão e uma mãe. Sabia que minha mãe não venceria a depressão, mais eu precisava. Minha mãe entrou em depressão e eu estala lá diariamente, firme e forte por fora. Chorei escondido, comi para espantar a dor, dormi para parar de pensar, enfiei a cara em um novo blog para pensar em outras coisas que não na morte de meu pai, mas ninguém percebeu isso. Mas levantava todos os dias, sem uma lágrima no rosto, sorria pra encobrir o inchaço, e tentava um dia após o outro. Mas sabe o que eu achei pior disso tudo? Quem cai logo em depressão liberta dentro de si a dor que tanto incomoda, e sinceramente eu nunca pude fazer isso. Levantar todo dia, fingir que nada acontecer, e guardar isso entro de si, e o pior remédio pra vida. Mas é isso que faço diariamente.  
Eu esqueci de mim, para não pirar, para poder estar aqui por outras pessoas. Fora isso meu relacionamento tinha ido água abaixo, e água só tem um sentido, o de ida.
O que eu não sabia que aquela missão seria muito maior do que o que eu tinha esperado para mim. Depois daquele dia eu criei um trauma. Não consigo entrar em um hospital, em uma UTI, em uma emergência, não consigo nem ver idosos na rua, que quero chorar, abraçar e levar pra casa. Não consigo mais trabalhar com pessoas que tenham risco de morte. Fracassei com meu pai, então não me sinto mais apta a isso, fracassarei com todos os outros.
Depois disso decidi que não trabalharia nessa área. Foi assim que decidi fazer pós graduação em estética. Ninguém me perguntou e eu também nunca disse o fato de ter mudado todos os meus planos, especializações ou tentar medicina. Ninguém perguntou e eu segui com isso. Vi pessoas me pedindo meu currículo para colocar em vários hospitais e clínicas. Dava e agradecia. Queriam me colocar na UNACOM. Agradeci também. Mas aquele não era meu lugar, era meu pesadelo. 
Eu circulei perdida por muito tempo, onde a única coisa que eu queria era arrumar uma mala e cair fora. Nesse momento eu nem sei porque comecei a escrever esse texto. Mas sonhei sendo escritora, tendo uma clínica enorme de estética, mas nada disso no fim me faria feliz realmente.
Eu precisava de algo que eu amasse, que tivesse sentido na minha vida, e que ao mesmo tempo trouxesse dinheiro para dentro de casa, uma casa enorme que só traz dívida e que a gente não consegue vender para ir morar em uma menor.
Então decidi que como estava " trabalhando " em um studio de newborn e era algo que eu amava. Eu tinha toda a experiência que precisava, sempre amei fotografia e não saia alto custo abrir um studio, precisava só de alguém que me ajudasse nisso tudo.
Foi ai que tentei conversar com minha mãe. Minha mãe é a melhor do mundo. Se preocupa comigo como ninguém mais faz. Mas com a sobrecarga de atividades dentro e fora de casa e de todas as dívidas, tudo que eu falo com ela, tenho como resposta  que ela não tem dinheiro, não tem tempo pra mim. Minha mãe se quer olha na minha cara ou conversa comigo porque tudo material e mais importante do que sentar cinco minutos comigo e procurar saber internamente como estou. Por isso ela nunca desconfiou que por dentro eu estivesse assim.
Eu descobri que as pessoas só olham para o próprio umbigo, e só olham para frente quando você dá uma de doida, e foi assim que tive atenção de minha mãe agora. Mas não é a atenção que quero. Não é a atenção depois de ficar louca. 
Eu dei a louca, falei coisas que eu não queria dizer, mas disse, não era nenhuma mentira. Eu precisava em algum momento desabafar.
Eu amo minha mãe. Faria qualquer coisa por ela. Mas não dá, não dá para seguir os planos que todo mundo decidi pra mim. Tenho 28 anos e estou desempregada porque eu passei a vida toda aceitando o que as pessoas queriam pra mim. Eu preciso respirar, tomar minhas próprias decisões, fazer o que eu quero. Tenho um irmão que não sabe da metade dos problemas que temos e que vive dentro de casa. Só quem recebe a bomba da vida sou eu, se tudo dá errado a noticia vem  pra mim, e se da certo ele é o primeiro a saber. Ela sempre tem tempo pra perguntar a ele quando ele viaja e quando volta, pra onde vai, o que precisa, o que quer comer. Isso nunca acontece comigo. Cansei. Cansei de dar minha vida para não ter retribuição.
Eu preciso ser reconhecida por ela. Por qualquer coisa. Eu perdi meu pai e ninguém se importou, só lembram de mim pra fazer alguma coisa. E ela? Ultimamente só me dá piada, só reclama, até quando eu faço as coisas. Qualquer coisa que eu faço é motivo de crítica.
Eu amo muito a minha mãe. Mas se eu continuar assim vou entrar no abaixo do fundo do poço. Eu não aguento mais. Eu estou pirando. Quero sair daqui, vender isso. Comprar uma casa menor. Abrir meu studio.
Quero não poder querer estar na sala sempre e ficar olhando pro lado e lembrando das últimas palavras de meu pai, ou olhando para o quarto lembrando dele dormindo e quando eu dormia com ele. Eu quero e preciso RECOMEÇAR. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário