O que mudou com o tempo? - O mundo da Tutty

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que mudou com o tempo?


Há algum tempo pensei em re-escrever um post que fiz meses atrás, seria um re-post, de tudo que havia mudado dentro de mim. Pois bem, não fiz. Quem ia se importar?. Mas tudo tem sua hora e seu momento, acredito ás vezes. 
O primeiro post que fiz foi sobre meu desabafo, e eu contei minha história, meus planos, meus sonhos, a forma como perdi meu pai, bem sucintamente, e todo o pesadelo que minha vida virou, e isso nem foi a metade de tudo que aconteceu. Então hoje, essa carta vai para você Ari, que não apenas leu, e se preocupou, como me fez reler e relembrar tudo que passei, e que não dá pra esquecer.
Foi exatamente no dia 30 que chegaram os exames de sangue de meu pai, fui a primeira a ver os exames e descobrir que ele tinha tumor, no dia seguinte (31) porém de março de 2015 que descobrimos o câncer em estagio terminal em meu pai. Ontem foi o dia que voltei a cidade que ele nasceu, e eu também, para rever os irmãos dele, meu tios e minha avó. Por coincidência foram os dois dias que eu quis ficar isolada, coincidência porque não notei as datas, apenas senti.
Muita coisa aconteceu desde então. Mas nada mudou. Mente quem diz que passa ou melhora, na verdade você se " acostuma " com a dor, com a falta, com a lembrança, você se acostuma até com o choro. Se acostumar é um verbo que vai entrar de todas as formas no seu cotidiano.
Eu nem sei por onde começar nessas fases da vida. Existe algo depois disso tudo que ninguém percebe, apenas você, e eu tenho criado vários transtornos compulsivos, fiquei mais pavio curto do que já sou, porque percebi que eu não preciso mais passar por certas situações na vida, sou alguém do bem, que faço tudo pelo próximo, e quero ser feliz e prosperar como qualquer outro, em qualquer sentido que a palavra se encaixe.
Apesar de enviar mil currículos, ainda me encontro desempregada, trabalho pra mim mesma com estética, e estou montando o studio de newborn como planejei, rezo para que dê certo. Tenho momentos bons e bem ruins com minha mãe, ela também mudou muito depois de tudo, então nossos atritos são mais relacionados a vontade de ficar só, de ter controle da vida, de novo.
Tenho uma cachorra de 12 anos, cresceu conosco, ela convive comigo durante quase todo dia, é minha melhor companhia, há pouco tempo também descobrir câncer nela, foi operada e vai bem. Criei um medo pavoroso de perder mais uma peça valiosa do meu quebra-cabeça chamado vida. Então já deixei de sair ou viajar mil vezes desde então, apenas para ficar deitada fazendo cafuné nela, imaginar sentir alguma dor de novo, me faz querer ficar cada segundo com ela.
A casa continua contraindo dívidas, ninguém compra, e capim nasce por todo lado. Uma mina de bomba isso aqui.
Quanto a meu pai, é inexplicável a falta que uma pessoa pode fazer em nossa vida, é inexplicável como apenas uma pessoa pode virar tua vida de cabeça pra baixo, é inexplicável como alguém pode ser dentro da vida de tantas pessoas um elo de ligação. Assim era ele. Como espirita que sou, e toda ajuda que tive, e todos os sonhos com ele, melhorei muito, tenho lá minhas recaídas, mais novamente, ninguém percebe, não preciso da pena de ninguém. Converso todas as noites com ele em oração e pensamento, imagino abrancando-o e fazendo todas as coisas que fazíamos.
Mas a realidade é que dói, e você aprende a transformar essa dor em lembrança, lembrança de todos os dias ele me levar café na cama, me abraçar, de andarmos de mãos dadas, fazendo inveja aos seus amigos, para ele era o auge do dia, uma brincadeira divertida. Lembranças de na hora da fome irmos em qualquer lugar, sentar e lanchar, pegar as netas na escola e vê que elas tinham orgulho de apresentar as amiguinhas quem era seu vovô. Lembranças de deitar em seu colo e receber cafuné enquanto a loja fechava, ou quando ele deitava no meu para eu tirar os cabelos que nasciam no ouvido. Lembranças dos cochilos ao som do desenho de pica-pau, seu preferido, ou de ele deixar de comer algo para que eu pudesse comer, porque tinha pouco, e eu fazia a mesma coisa, e a comida ficava lá esfriando. Eram tantas provas de amor...
A culpa por não ter visto essa doença se instalar vai e volta, constantemente. Os choros sempre aparecem na solidão do dia, quando almoço só, assisto só, ouço nossas músicas, quando olho pra tatuagem, pra sua foto...Mas ninguém ver ou percebe porque por fora sigo sorrindo, sigo firme, sigo um dia após o outro.
Existe muito mais coisa, entre apenas essas pequenas frases que descrevo. Existe mais dor, e mais pesadelos do que se pode supor. Mas com relação a ele sigo "feliz", hoje. Porque ao visitar minha avó (sua mãe) que hoje padece em cima de uma cama, entre a vida e a morte, com 10 filhos vivos e desses, dois querem cuidar e o resto nem dinheiro querem dar para ajudar nos custos, fico imaginando como meu pai se sentiria nessa situação. Ele que dava a vida pela mãe, que chorava por não poder ajudar mais, ou estar mais presente, já que ela mora em outra cidade. Hoje teria decepção de ter tantos irmãos nojentos e egoístas. Filhos estes que tiveram que ir pra justiça para saber quem fica com a mãe, porque ninguém quer, qual o valor mensal a ser dado para custos de home care, remédios e internações, que ninguém quer pagar, custo esse que gira de 50,00 a 250,00 reais. Para quem deu a vida por esses, não vou chamar de filhos, ela que foi heroína em vida, merecia muito mais. Minha vó não apenas deu sua vida aos filhos, genros e noras, como deu sua vida e dinheiro a um orfanato que ela criou. Hoje está sendo jogada de um lado para outro, como uma roupa velha que ninguém quer usar. E eu mais uma vez, virei testemunha de uma insanidade, para saber quem merece o quê. Fico aqui agora, pensando o que meu pai acharia disso tudo... o que ele pensa lá de cima. 

Então mais uma vez quando a dor se instala eu corro pra cá, escrevo, posto foto no insta, fotos alegres, felizes, porque mais uma vez ninguém precisa saber minha dor. Faco vídeos pro youtube, leio livros, ocupo a mente, até ela cansar e dormir. E assim que tem sido nos últimos tempos. Mente ocupada não dá espaço... e quando sobra ( como agora) invento até dieta, receita...em fim. A gente vai inventando arte enquanto a vida inventa dilemas. limões e limonadas.

2 comentários:

  1. Tutty, querida! Fico feliz por ter te tocado de alguma forma. Eu acredito, assim como a maioria das pessoas, que existem propósitos, as coisas acontecem por algum motivo, mesmo que no momento em que aconteçam a gente fique perdido, amargurado, buscando entender ou só sobreviver, mas penso que lá na frente a gente pode olhar pra trás e pensar em como tudo contribuiu para nos tornar alguém mais forte, mais corajoso. Eu perdi minha avó aos 5 anos, nós éramos muito apegadas, pq eu era a neta mais nova, os outros netos já eram casados. Sei que não se compara a sua dor, pq cada dor é única junto com o indivíduo que a sente, mas gostaria de te dizer que sinto-me grata pelo tempo que desfrutei com ela, mesmo que pouco. Não se culpe por não ter descoberto antes a doença do seu pai, você não tem culpa alguma. Pense em como você ficou ao lado dele nesses últimos momentos, em como você deu seu amor no momento em que ele mais precisou. Força, garota! Você irá vencer tudo. E vou aguardar pelo post em que você dirá que já está sorrindo de verdade, pq a caminhada pode ser lenta, mas o importante é que ela aconteça. Estou aqui torcendo pela sua felicidade! E espero que seus tios possam compreender enquanto ainda há tempo o quanto cuidar daqueles que amamos é importante, como a sua avó. Bj!

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  2. Oi Ari! A vida é engraçada! Só hoje vi teu comentário, exatamente hoje quando tudo aconteceu! Ouvi isso hoje, cada um sente a dor da perda de uma forma, mas para cada um a dor é intensa e insuportável, por isso não devemos achar que sentimos mais dor que alguém. Sinto dor não por ter ficado com ele nos ultimos momentos, mas porque estive al lado dele a vida inteira, e agora sinto um buraco atmosferico em minha vida. Bom minha vó faleceu hoje...então fiz outro post. Dessa vez mais curtinho. espero que goste de mais um desabafo.
    http://www.omundodatutty.com/2018/02/hoje-e-dia-de-festa-hoje-e-dia-de-choro.html

    beijos

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